Uma
das relações de mais difícil equilíbrio no Brasil tem
sido aquela entre intelectuais e o Estado. Além das contínuas
tensões entre, de um lado, os críticos das políticas
estatais de cultura e, de outro, os próprios intelectuais
que atuam na administração das políticas culturais, existe
um consenso-provavelmente compartilhado por outros países
latino-americanos-de que o Estado deve exercer um papel
ativo e constante no apoio a todas as manifestações da
cultura nacional. Como Márcio Souza assinalou, no Brasil
o sentimento geral que se mantém com relação à presença
do Estado na promoção cultural é simultaneamente de esperança
e desconfiança. Em outras palavras, embora a opinião
seja de que o Estado sempre deve atuar através de políticas
culturais nacionais, há historicamente uma ampla descrença
na capacidade e nos objetivos dessas políticas propostas
pelo Estado brasileiro. Não é sem motivo que a apresentação
de Márcio Souza tenha iniciado precisamente por um episódio
histórico sem paralelo e tão simbólico deste sentimento
ambíguo com relação à função cultural do Estado: a transferência
da corte portuguesa de Dom João VI para o Rio de Janeiro
em 1808 por temor à invasão napoleônica. Pela primeira
e única vez na história um reino europeu tem a sua família
real, juntamente com a sua sede administrativa, radicada
no Novo Mundo. As conseqüências para o Brasil são imediatas:
o início de uma política de infra-estrutura cultural
antes inexistente na colônia portuguesa. Uma política
necessária-embora imposta de cima para baixo, como tem
sido a tradição brasileira-para a tentativa de criar
em meio a uma plebe inculta uma vida cultural que de
algum modo espelhasse Lisboa.
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Marcio
Souza
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Muito
habilmente, Márcio
Souza retratou as conseqüências e o desenvolvimento das
políticas culturais brasileiras dos últimos 200 anos.
As conquistas dos períodos de franco desenvolvimento
cultural-especialmente entre a segunda metade do século
XIX e a primeira do século XX, de acordo com Márcio Souza-foram
ameaçadas pela ditadura militar (1964-1985) e pelo governo
civil de Fernando Collor de Mello, responsável pela quase
aniquilação das políticas estatais de fomento à arte, à cultura
e ao ensino universitário. O Brasil tem em Márcio Souza
um excelente escritor e um administrador cultural bastante
ativo e otimista, espelhando em muitos sentidos o ethos
administrativo do atual presidente do Brasil, Fernando
Henrique Cardoso.